sábado, 11 de dezembro de 2010

7. Imagens Suspeitas

O Dr. D. Costa considerou que eu e a minha última mamografia devíamos ser vistos pelo seu colega mastologista, o Dr. José Vaz. Perguntei se desconfiava de algo novo, mas ele respondeu apenas: - É sempre melhor ser avaliado pelos melhores. Combinámos um encontro na Urgência do hospital, para depois ele me levar até ao Dr. José Vaz, me apresentar e me deixar com ele. O Dr. José já falara com o seu colega. Todavia, fez-me algumas perguntas de rotina sobre a evolução dos meus nódulos, viu a minha última mamografia e outras que levei, fez-me a palpação, mostrou-se preocupado por haver um nódulo visível nos exames mas não palpável, e marcou, sem me perguntar se eu podia comparecer, uma biópsia para daí a dois dias, às 21 horas, no hospital. Regressei a casa sem muitos pensamentos, considerando mais o transtorno de ficar sem o serão que antecedia o início das reuniões de avaliação do primeiro período. Para as minhas mãos, nenhum dos nódulos alguma vez fora palpável. Eu ia sabendo deles pelas mamografias e ecografias mamárias e já tinha conhecimento de que havia desconfiança de um fibroadenoma. Contudo, até então, sempre me disseram que o que havia a fazer era controlar, o que eu sempre fiz, naturalmente.
Dois dias depois, lá estava eu, à noite, à espera de ser picada na mama. Intercaladamente com o pessoal da Urgência, iam entrando senhoras para o mesmo que eu e ouviam-se sempre os seus ais e os seus gemidos. Numa das aparições do Dr. Carlos no corredor, perguntei-lhe se ia doer e ele respondeu-me docemente:
- Claro que não, minha querida, comigo está nas mãos de um anjo.
Continuei em pé, encostada à parede, até se perfazerem duas horas de espera. Pensava que devia ter levado comigo o trabalho da escola. Ainda não tinha as grelhas todas preenchidas para a primeira reunião, às 9 horas do dia seguinte. Sentia o cansaço tomar conta de mim e ainda havia tanto a fazer antes de poder ir dormir.
O Dr. Carlos alinhou as minhas mamografias no painel da contraluz, não conseguiu disfarçar uma expressão de quem deparou com algo que preferia não ver e, em silêncio, comparou tantas vezes os meus registos que eu, não conseguindo decidir se falava ou não, experimentei, sem palavras de ninguém, a primeira sensação de medo (mas logo quase uma certeza) que houvesse algo maligno dentro de mim. Quebrou ele o silêncio, começando a fazer-me perguntas, de uma forma delicada, mas que também senti estar a demorar uma eternidade. À medida que ia respondendo, ia aumentando o meu estado de impaciência, pois o que eu queria era perguntar. E, quando o fiz, obtive:
- Tem um nódulo que é visível nos exames mas não se consegue palpar e parece ter mudado de aspecto desde o último exame. Vamos tentar chegar a esse na biópsia. Já alguma fez isto? - E eu respondei que não, apenas uma punção. Então ele mostrou-me uma espécie de pistola e a agulha (grossa) que iria usar, acrescentando que, em três ou quatro disparos, ele deveria conseguir recolher uma quantidade suficiente de tecido para enviar para o laboratório de anatomia patológica.
Os disparos foram cinco. Entre eles, falávamos de futebol (assunto que eu nunca abordo), como se cada disparo fosse um golo e o pequeno interregno que fizemos, para eu descansar um pouco, fosse o intervalo entre os dois tempos de um jogo - numa perspectiva de contagem decrescente do tempo até ao fim da biópsia. Confesso que foi uma boa estratégia a do Dr. Carlos. Se aquela primeira pequena grande invasão à minha mama direita tivesse acontecido nas mãos de um médico silencioso (como conheço tantos), a dor ter-me-ia logo atingido a alma; assim, ficou, por essa altura, apenas pelo corpo.
No fim, recebi uma festa do Dr. Carlos e os parabéns por me ter portado bem, acompanhados de uma exclamação:
- Eu não lhe disse que ia estar nas mãos de um anjo!?
Interroguei-me se ele não teria sido anjo para as senhoras que se ouviam gemer de dor lá fora ou se seria eu que conseguia sofrer em silêncio e elas não. E inclinei-me para a segunda hipótese. Pareceu-me, aliás, logo ali, que eu só podia ser optimista, ter pensamentos positivos. Mas, pouco depois, chegaria o segundo embate. Já passava das onze e meia, quando o médico me disse que ia tratar de uns contactos, nomeadamente de um telefonema para o Dr. José. Estranhei aquele procedimento a uma hora daquelas, mas pus a hipótese de o colega estar de serviço e, por isso, aquele telefonema não ir incomodá-lo no seu repouso.
- Pode cá estar amanhã às nove? - perguntou-me após os contactos.
- Da noite? - experimentei, por comparação com a hora marcada para o exame que acabara de fazer.
- Não, da manhã. O Dr. José vai cá estar e eu quero que a veja.
- Mas amanhã às nove eu tenho uma reunião de avaliação.
- Então e não pode mesmo? Veja lá isso. Comunique com quem precisar. Eu vou arrumar os seus exames, escrever uma carta ao Dr. José... Sabe, os dias a passarem... nestes casos...
Devo ter ficado branca, mas não tenho mais testemunhas para além dele. Tinha ido sozinha.
Dali do corredor do hospital, enquanto um médico, pretensamente, arrumava a minha tralha e escrevia uma carta sobre mim a um colega, eu liguei à Madalena e disse-lhe que quando chegasse a casa enviaria por email a documentação para a reunião das nove, documentação que eu ainda não tinha pronta, pois tinha contado com aquele serão para concluir o meu trabalho. Em casa, o Pedro arranjou-me uma ceia enquanto eu lhe contava a minha experiência, da qual tive uma recordação visível (um grande hematoma) até ao último dia de vida da minha mama.
Ter o Pedro para me ouvir e mimar produziu o habitual efeito calmante, e eu tratei dos meus afazeres até ao envio de tudo por email.
Estávamos a dezassete de Dezembro. Eu ainda não sabia, mas não voltei a trabalhar na escola durante um longo período.

4 comentários:

Madalena disse...

Meu Deus como tu escreves tão bem. Quase chorei por me sentir no teu lugar. Um beijinho muito grande Guida!

Guida Palhota disse...

Olá, Madalena!
Sinto-me muito lisonjeada por ter conseguido que te identificasses na leitura da minha história.
Desconfio que apareceste em boa hora, pois eu estava a precisar de um "empurrãozinho" para continuá-la.
Tenho andado muito dorida e em grande desânimo por causa disso, o que me tem feito desinteressar pela escrita.
Obrigada pela tua visita. Vai aparecendo!

beijocas

Kimbanda disse...

Olá Guida,

Espero que te sintas melhor e que o ânimo para escrever regresse.
Eu até aqui tenho lido, como quem escuta de viva voz o que tens para contar. Não tenho comentado é verdade, mas tal não quer dizer que não acompanhe e tal deve acontecer com outras pessoas que aqui vêm "ouvir-te".
Emociona-me, a tua coragem e força para tanto enfrentares.
Dás um contributo precioso, porque todos devemos ter presente que o que passaste e passas, não escolhe a porta onde bate. Bem hajas!
Venho também para te desejar umas Festas Felizes em paz e harmonia, junto dos teus.

Beijo e kandandos.

Guida Palhota disse...

Olá, Kimbanda!
É bom ler-te por aqui.
Tenho andado cansada de uma situação que se arrasta há quase três anos e até piorou ultimamente. Mas talvez o facto de ter piorado contribua para a solução do problema, pois, de tão insuportável se ter tornado, decidi virar-me para outro lado: novos médicos, novas opiniões, novos exames... A ver vamos.
A vontade de escrever tem existido, mas o ânimo não - se é que podemos destrinçar as duas coisas -, e eu estou desejosa de regressar à normalidade, algo de que já cheguei a duvidar...
Bem, quando estamos muito em baixo só já podemos é voltar a subir, não é?! É isso que procuro agora. Tenho consulta amanhã.
Volta sempre. E eu hei-de voltar a passar também nos teus caminhos (desculpa a ausência).

Espero que o teu Natal seja vivido em harmonia e que te sintas o mais próximo possível da felicidade.

um beijo natalício
e kandandos ;-)