segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

5. Potenciais Problemas para a Saúde

Por essa altura, já eu andava há mais de um ano a fazer mamografias com regularidade, pois em cada nova que fazia apareciam mais nódulos na minha mama direita e os que já lá estavam anteriormente revelavam ter aumentado de tamanho. E até já tinha feito uma punção, com uma agulha fininha, para retirar tecido para ser analisado. Os médicos estavam atentos, mas diziam que o aspecto apontava para algo benigno. E o resultado da punção não foi diferente. Eu andava naturalmente preocupada e falava nisso às pessoas com quem me dava, mas confiava nos médicos e acreditava não haver qualquer problema para a minha saúde por esses corpos estranhos ao organismo estarem dentro da minha mama. Mais preocupada estava a minha mãe, talvez por ser a minha mãe e por a ela, trinta e tal anos antes, terem retirado alguns nódulos da mama esquerda. Eu não ligava muito ao caso da minha mãe, pois tinha sido um caso de retirada de tumores benignos e ela nunca mais tivera nada estranho na mama. Contudo, outras pessoas mostravam-se sempre interessadas na evolução dos meus nódulos. Uma dessas pessoas era a Rute, que chegou a ligar-me para saber como ia a minha mama e esteve à conversa comigo sobre isso e sobre outros assuntos durante mais de uma hora, tendo, curiosamente, rodeado a questão que eu andava a querer debater com ela, e a questão ficou, de facto, sem ser debatida.
Na escola, algumas das minhas colegas começaram a preocupar-se consigo próprias, pois, não tendo mamografias recentes, punham todas as hipóteses. Percebi que o que se passava comigo provocava algum medo nas mulheres, mas eu não estava amedrontada. Não pensava muito no caso e julgo que não pensava em cancro, por crer que, mais dia, menos dia, me aconteceria o que aconteceu à minha mãe, sem mais. Até a Madalena tirara um nódulo aos quinze anos e outro uns anos mais tarde. Tudo benigno. E ser operada para tirar os nódulos não era coisa que me atrapalhasse, talvez especialmente por saber que a minha mãe o tinha feito e por reconhecer nela muita força em questões de intervenções médico-cirúrgicas. Se a minha mãe enfrentava esses problemas com toda a garra, não havia de ser eu que me ia revelar uma medricas ou uma fraquejota! Portanto, eu aguardava serenamente a evolução, embora saiba que lá muito no fundo, sem consciência absoluta, até porque nunca o verbalizei (eu, que sou uma "verbalizadora" compulsiva...) morava alguma apreensão. Mas a vida continuava, naturalmente stressante e deliciosa, quer no que dizia respeito à profissão, quer no que tocava à família.
Na escola, destacavam-se, pela negativa, os conselhos pedagógicos, que, quase invariavelmente, se iniciavam às cinco da tarde e terminavam pelas onze da noite, sem qualquer intervalo. Eram reuniões massacrantes pela sua duração e pela consciência de que muitos dos envolvidos gostavam era de se ouvirem a si próprios e, por isso, o sumo desses encontros, arrastados e pouco agradáveis, era quase nenhum. E havia também a desagradabilíssima presença de um dos representantes da Associação de Pais, que nunca deixou de estar contra os professores, fossem quais fossem as suas ideias. Parecia que estava mandatado para contrariar e contradizer e apostava sempre em nos lançar um interrogatório cerrado, que, apesar de não amedrontar ninguém (até porque cão que ladra não morde!), moía-nos a todos, arrasava-nos as poucas forças que ainda tínhamos, após um dia que começara às nove da manhã e já estava a entrar pela noite. Depois de aturarmos os filhos, acto contínuo (depois do lanche) aturávamos os seus pais, na pessoa daquele indivíduo, que só pode ser um frustrado, para pegar em tanto pormenor sem importância para o bom funcionamento da escola e, muitas vezes, carecendo de carácter pedagógico, sem nunca a sua intervenção ser travada pelo presidente, o qual até deitava mais achas para a fogueira.
Em dias de conselho pedagógico, quando eu chegava a casa, o Pedro fazia-me companhia na cozinha e eu jantava o que conseguia comer, que era sempre pouco, devido ao stresse, apesar de me encontrar esfomeada. Muitas vezes, doía-me o estômago e outras tantas contava o meu dia ao Pedro lavada em lágrimas de stresse. Felizmente o tinha ali, para relativizar tudo aquilo que me parecia uma grande chatice e para me abraçar, aquecendo-me a alma. Eu sentia, seriamente, que, sem o Pedro, não aguentaria a vida que estava acontecer-me. Porque ela estava mesmo a acontecer-me. Eu nem sequer tinha querido ser coordenadora de departamento. Fora eleita e tivera de aceitar.
E os meus amigos de Lisboa pareciam-me cada vez mais longe, relacionalmente falando. Tanto assim que houve um outro episódio por causa de emails, quando eu decidi enviar a todos os meus contactos um pedido, escrito em tom de brincadeira, para não me enviarem emails em massa. Estava tão cansada de os receber e de ter de os deitar fora que resolvi manifestar a minha opinião a toda a gente, acreditando, ingenuamente, que achariam piada à linguagem e que fixariam que eu não gostava daquilo e não me enviariam mais do mesmo.
Intitulei-o Email Para a Malta Minha Amiga (Boas Festas e assim...) e escrevi:
--------------
Malta
Vocês são todos uns bacanos, baris, fixões (Atenção: Estou de férias... posso usar calão! Mas não dou erros ortográficos, nem de construção!!!...), gramo bué de vocês todos, mas tenho de esclarecer aqui uma cena...
É assim: Mails desses de "Vou ficar à espera, a ver se me me devolves", "Se não enviares a 1473 pessoas nos próximos minutos, tás f...e se enviares serás feliz para sempre ou então vai realizar-se esse desejozinho secreto que mora aí e não contas a ninguém..." só me dão vontade de vos esganar !!!
Pronto. Já disse.
É que um gajo (ou gaja, que sou eu) tem direito a melhorzinho. Tenho a caixa de e-mail permanentemente com + de 100 mails por ler...
Ora, convenhamos, malta amiga... Mandem algo que não me exija nada! Assim coisa tipo prenda que é para mim mesmo e não para vos devolver nem para partilhar com o resto do mundo!!!
Claro que há coisas indiscutivelmente meritórias da divulgação à Humanidade, mas deixem-me ser eu a decidir!!! Adoro decidir! ADORO DECIDIR!
Portanto... não sejam uns cabronaços exigentes! Sejam antes uns mãos largas selectivos!!! Perceberam?! Selectivos! Atrevam-se a conhecer os outros e a saber do que gostará este e do que gostará aquele...
Ai dá trabalho dá!!! Mas é cá um gozo ter a certeza que este gosta de Mon Cherry e para o outro já tem de ser Ferrero... E que o terceiro é igualmente amado por nós, mas odeia chocolate, coisa pela qual nós até daríamos a vida...
Pois é! Um conhezinho de diferenciação na apreciação dos nossos mais queridos é das coisas mais inteligentes que podemos tentar concretizar na vida!
Eu vou esforçar-me por vos perceber a todos. Sei que se calhar já vos enviei muita treta, mas quero redimir-me. Digam de vossa justiça aquilo que gramam e não gramam.
Sejamos sinceros, francos, sem medo de magoar, porque desde que a intenção não seja mesmo magoar... tudo é válido! Menos tirar olhos, como já todos sabem!
P.S. Se recebeste esta mensagem é porque gramo buereré de ti, mas não precisas de ma devolver nem de a enviar em poucos minutos ao mundo inteiro!
Tchau. Goza as férias à maneira, curte bem a Páscoa e os bacanos da tua família.
2º P.S. Mesmo que não devesse tratar-te por TU, cá vai porque é sinal que és barilóide!
3º P.S. Agora que estás a ler isto, já esta converseta toda chegou às caixas de muitos outros chavalos e chavalecas também importantes para mim. Mas tu não sabes quem são porque eu envio isto sem te deixar saber. Hi! Hi! Podias fazer o mesmo...
4º P.S. Depois disto tudo, ficas a saber que eu também sou uma porreiraça - se for caso disso, quando é caso para isso, com quem merece isso...(Ou seja, escusas de começar a imaginar!...)
Mas isso não significa que admito qualquer coisa... A começar por emails em cadeia e com ameaças ou promessas... e a acabar em emails em cadeia e com ameaças ou promessas!!!
Ah... e-mails de aflição com caras de putos perdidos e assim também morrem logo aqui...
Pensem o que quiserem!
Há muitas maneiras no mundo para se fazerem as coisas bem feitas! Não é preciso ir sempre por um caminho qualquer, o primeiro que aparece, o mais fácil, o que está mais à mão!
E mais: é fixe considerar que contigo posso usar a palavra 'fixe', assim... "off the record"...
Margarida Faro
--------------
(Eu estava a sério e a brincar, ao mesmo tempo, acto mais do que comum na vida do clã dos meus amigos...)
Dessa vez, aconteceram três reacções , uma positiva, uma neutra (a de quem não respondeu) e outra negativa. A negativa foi do PedrO e rezava assim:
--------------

Cara amiga:

A vida no campo possibilita, na verdade, bons horários... e muito tempo livre..

Não percebo como é que tens tempo e pachorra para dares importância a coisas completamente irrelevantes e perfeitamente inofensivas.

Estou sempre a receber todo o tipo de mensagens, mais ou menos interessantes, mais ou menos engraçadas, mais ou menos bimbas, etc etc, mas nunca me passaria pela cabeça estar a dar importância a coisas que simplesmente não têm qq tipo de importância ou relevância. E correr ainda o risco de com respostas, essas sim um pouco, diria, desagradáveis no mínimo, deixares, provavelmente de as voltar a receber. Mas, ...essas e provavelmente quaiquer outras......

Apetece dizer, Guida, Guida, sou eu, somos nós, lembras-te?! Estamos a brincar, a gozar, a ironizar o próprio conteúdo da mensagem.. Percebes? Descontrai, ri-te um bocadinho..não sejas tão insegura. Não queiras ser a medida para o tipo de humor (mais ou menos selectivo) dos outros. Guida, não compliques...

Bjs e Boa Páscoa

PS: Espero que pelo facto de ter escrito Bjs e não Beijinhos, não fiques a pensar que o que eu realmente queria era ter o menos trabalho possível e não escrever a palavra toda, ou que o que eu no fundo penso é que tu não mereces beijinhos com estas letras todas, mas apenas com três, ou ainda que beijinhos com três letras não têm o mesmo valor que beijinhos com nove letras, ou ainda que beijinhos com três letras são pouco selectivos e dão-se a qq um ou uma, e que portanto não há direito para tratar os amigos assim, etc., etc., ...

Guida, descontrai...

E já agora , BEIJINHOS e Boa Páscoa

(e boa sorte para a Maria)

PedrO

--------------

A primeira frase do PedrO podia ter-me dado para rir, mas, apesar de eu continuar a alimentar a contenda, já estava a ficar cansada dela e pareceu-me que ele começava com uma ironia de um tipo corrosivo, a qual eu não reconhecia nas minhas palavras. E em toda a mensagem ele simplesmente gozava comigo, não chegando nunca ao cerne da questão...

Eu andava cansada, stressada e desanimada com a crescente onda de reacções contra o que eu escrevia. Mas isso talvez me desse para escrever cada vez mais dura e apaixonadamente, pois essa escrita era, para mim, libertadora de tensões. O problema era que ela libertava umas, mas provocava outras! E entrámos num ciclo vicioso, que envolveu vários emails e vários telefonemas, até serenarmos um pouco.

2 comentários:

acácia rubra disse...

Ainda bem que cheguei atrasada.

Fiquei, não sei porque cargas de água à espera de ver este teu novo blogue acopulado ao teu outro. Hoje que andei a arruar a casa bloguista reparei que assim não era.

Mas já li tudo e já coloquei o teu blogue na lista dos visíveis.

Desculpa, mas vou estar sempre aqui.

Beijo

Guida Palhota disse...

Acácia Rubra:
Tu queres que eu te descuple?! Nah, não faço isso. Tu serás sempre bem vinda, quer a esta casa, quer às outras que vou mantendo (sou uma proprietária insaciável, estou sempre a arranjar mais trecos e o trabalho a que eles obrigam...).
Vem às horas que quiseres. Empurra a porta, entra e aconchega-te. Não tenho acendido a lareira, mas a história vai quentinha!...

beijos